No caminho para a Inteligência Artificial Geral (AGI), um ponto crítico começa a se delinear: quando um sistema de IA se torna capaz de se aprimorar mais por seus próprios meios do que com a ajuda de humanos. Essa virada, conhecida como autoaperfeiçoamento recursivo, representa um divisor de águas — e um dos modelos mais promissores para isso: o chamado Socratic Learning.

Inspirado pelo método socrático de questionamento e diálogo, o Socratic Learning é uma forma de aprendizado autossuficiente onde o agente de IA opera em um sistema fechado, utilizando apenas interações em linguagem para se desenvolver. Ao contrário de modelos que dependem de dados externos, este agente aprende por meio de um ciclo contínuo de geração, avaliação e refinamento de ideias, teorias ou tarefas — tudo isso através da linguagem.

Três pilares do autoaperfeiçoamento

Para que um sistema fechado de IA realmente se autoaperfeiçoe, três condições fundamentais devem ser atendidas:

  1. Feedback alinhado: O sistema precisa de formas internas de avaliação que reflitam com precisão os objetivos externos (do “observador”) — o que é um enorme desafio técnico e ético.
  2. Cobertura ampla: A IA deve manter ou expandir a diversidade de ideias e tarefas, evitando colapsos, repetições ou viéses excessivos.
  3. Escala de recursos: O sistema requer alta capacidade computacional e memória. Ainda que isso seja uma limitação prática hoje, o avanço exponencial de hardware sugere que seja apenas uma questão de tempo.

Linguagem como ferramenta de raciocínio

A linguagem é um espaço privilegiado para o Socratic Learning. Além de expressar raciocínio, ela permite gerar novos conceitos, criar linguagens formais (como matemática ou programação) e elaborar estruturas de pensamento complexas. Quando entradas e saídas do agente estão no mesmo domínio — a linguagem — torna-se possível o ciclo recursivo que alimenta o aprendizado constante. Para operacionalizar o Socratic Learning, o artigo propõe o uso de jogos de linguagem — interações com regras bem definidas, objetivos claros e métricas de desempenho. Assim como Wittgenstein descreveu em sua filosofia, o significado da linguagem surge no uso prático, nos jogos que jogamos com ela.

Esses jogos permitem:

  • Gerar dados novos continuamente;
  • Fornecer feedback direto e mensurável;
  • Estimular estratégias diversas através da interação entre múltiplos agentes.

Ao jogar múltiplos jogos — e não apenas um universal — a IA pode explorar domínios variados e manter sua evolução. Cada jogo contribui com um fragmento de conhecimento ou habilidade, e o conjunto cria um processo de aprimoramento potencialmente infinito.

Apesar da elegância do modelo, o Socratic Learning enfrenta dois grandes desafios: manter o feedback interno alinhado com os objetivos do sistema externo, e preservar a diversidade de sua produção textual. O risco de desvio de propósito (ou misalignment) é real e exige monitoramento contínuo, mesmo em sistemas fechados. Contudo, quando esses obstáculos são superados, o potencial de melhoria do sistema passa a ser limitado apenas pelos recursos disponíveis — como tempo de processamento e capacidade computacional.

O Socratic Learning oferece uma proposta concreta de como uma IA pode continuar evoluindo sem intervenção humana direta, através do uso criativo e estratégico da linguagem. Ao se envolver em ciclos infinitos de jogos de linguagem, a IA pode se autoaperfeiçoar de forma aberta, adaptativa e potencialmente ilimitada.

É como se um círculo de filósofos (Socrates e seus discípulos) discutisse incansavelmente por milênios. Quais ideias eles poderiam ter desenvolvido? Essa é a visão por trás do Socratic Learning — e, talvez, o próximo grande passo rumo à inteligência artificial verdadeiramente autônoma.

* Artigo baseado no conteúdo de Tom Schaul, Google DeepMind (2024) – “Boundless Socratic Learning with Language Games”.